Editorial

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Joan Miró. Blue II. 1961. Oil on canvas. 270 x 355 cm


E cá estamos nós, finalmente, com a TUDA Março. Com os ares primaveris já quase soprando aqui nas Terras de Cima para amenizar as dificuldades...

No momento que escrevo este editorial ainda não sei se TUDA será publicada a tempo. Foram muitas intempéries que me fizeram procrastinar mais e mais a edição/editoração de TUDA... assim, mais uma vez apelo aos colaboradores - habitués ou eventuais - que se atentem às novas regras de formatação para colaborarem com TUDA. Um pequeno esforço, creio eu, que ajudará muito o trabalho deste que vos chega...

No mais, vamos tocando o barco, a corneta, o piano e a guitarra. Algumas idéias para melhorar o layout de TUDA ainda ficarão no papel - ou melhor, na cabeça - mais um pouco, à espera de mais oportunidade - leia-se tempo.

Mas deixemos de ladainhas... TUDA Março vem com tudo! A boa notícia é que recebemos muitas colaborações este mês. Tantas que não será possível publicar todas... mas elas serão publicadas oportunamente nas próximas edições. Enquanto isso, continuem mandando trabalhos... TUDA é DEMOCRÁTICA & INCLUSIVA!

Este mês TUDA traz as Palavras Quebradas de Arnaldo Xavier, Souzalopes, Luiz Roberto Guedes, Santiago de Novais, Sandra Ciccone Ginez, Dorival Fontana, Rafael Mantovani, Túlia Lopes e Adriana Pessolato. As Palavras Contínuas de Roniwalter Jatobá, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Jeanette Rozsas e Leonardo André Elwing Goldberg. Nas Palavras Alheias, o espanhol Antonio Gamoneda. Oswald de Andrade está nas Foreign Words, Raul Bopp em Palavras Já Ditas. As Palavras Mostradas de José Geraldo de Barros Martins, o britânico Banksy, Eduardo Miranda e Aristides Klafke. Nas Palavras Ensaiadas, Ronald Augusto.

Agora, como de costume, é só degustar, deglutir, triturar... TUDA à vontade. Pode até lamber os dedos que TUDA é limpinha... limpinha mas contagia. E como contagia! Por isso, aprecie TUDA SEM NENHUMA MODERAÇÃO. Ela só é contra a INDIFERENÇA!!!

Na luta, companheiros... e TUDA de bom!

Dívida Interna

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010
Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Teresa Thinen & Eduardo Miranda

Revisão
Túlia Lopes, Eduardo Miranda & Teresa Thinen

Colaboradores
Adriana Pessolato, Antonio Gamoneda, Aristides Klafke, Arnaldo Xavier (in memorian), Banksy, Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Jeanette Rozsas, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Leonardo André Elwing Goldberg, Luiz Roberto Guedes, Oswald de Andrade, Rafael Mantovani, Raul Bopp, Ronald Augusto, Roniwalter Jatobá, Sandra Ciccone Ginez, Santiago de Novais, Souzalopes, Túlia Lopes

E-mail

Poesia - Arnaldo Xavier

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Francesca Enriquez, "Untitled", Oil on Canvas, 66 x 50 cms., 1989

...

4

Se da teia
a luz rasga
tábua fria
das dúvidas

Se pássaro labirinto
contido nos pés
e nas asas
ignora espaço

na razão flor
Que o galho torto ou reto projeta
na comida irmã

A sombra

5

Se peso morto
Fosse água que o olhar arrasta sem culpa
Linha de dúvida
costura mão
Sem começo
Sem fim

Nua armadilha
Em silêncio encobre

A indefinição

6

Árvore de olhos negros
cabelos verdes
Sobe a rua
a tarde
entre olhares frios de automóveis

Árvore de olhos negros
Cabelos verdes
Triste
dobra a esquina
Destino à Avenida Paulista

Indiferente aos milhares
De corações sobre rodas
Árvore árvore
Segue a arrastar
sua própria sombra
Parapagar

A luz

...

[ in Entrada de Luz, inédito ]

Arnaldo França Xavier (Campina Grande, 19/11/1948 - São Paulo, 26/01/2004) foi poeta, escritor e pensador do movimento negro no Brasil. Publicou Boleros Pretos, A Roza da Recvsa, Ludlud e Manual de Sobrevivência do Negro no Brasil (ilustrado pelo chargista Maurício Pestana). Participou ainda de inúmeras coletâneas de bibliografia restrita e pequenas tiragens.

Poesia - Souzalopes

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Elmer Rosin, untitled, watercolor on paper, 10x7 in, 2007

este é o homem m'filho o filho da mulher
que o pariu na pedra ele tem pêlo e é mar
é água o seu corpo em seu corpo o sal
o pêlo da sua pele é onda quando o vento
quando o vento é manso o homem como dorme
como acorda como o mar como diz tormenta
como faz lua faz maré um dia ele ama
como ama como o mar um diapouco um copo
dágua um diadágua um sol um solto corpo
é o que ama o homem como ama como o mar

Mário Luis de Souza Lopes, ou simplesmente Souzalopes, nasceu em Itajuípe, BA. Advogado, publicou, entre outros, o livro de poesia Todo Fogo.

Poesia - Luiz Roberto Guedes

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Véra Oliveira, Mário de Andrade, Mosaico.


[Mariogame nº 3]
“O sinal dos meus pés é invisivel agora...”
Mário de Andrade

O rio Anhangabaú
É um rio que não há:
Está sepulto debaixo
Do viaduto do Chá.
Tem outro rio no alto,
Rolando pra-lá-pra-cá:
A multidão está só
No viaduto do Chá.


Cada um com seu tributo,
Com seu toma-lá-dá-cá,
No passo de contradança
Do viaduto do Chá.
Tal qual monções se aviando
Cada qual com seu pra-já
Por sobre um rio havido
Que não tinha mais lugar.


Meu rebanho turbulento
— Minhas alucinações! —
Vai relendo os mudamentes
Entalhados nas feições...
É ver novelos de rios
Desenrolando distâncias...
Assim vão pastando os anos,
Verdes pastos de esperança...


Sob trapos e molambos,
Bem debaixo dos narizes,
A miséria faz seu rancho
De viventes invisíveis...
Em vão esmolando olhos...
A esmo... Sonambulando...
Fantasmas que nem o rio,
Fantasma subterrâneo...

Vem chuva lavar o vale!
Fogem farrapos em farrancho.
Águas e ventos guaiando
Prantos por rios defuntos.
E a correnteza arremete,
Que seu lema é avanço,
Recomeça em todo braço,
Traça o rumo, risca o traço...


A multidão está só
No viaduto do Chá —
Cada um com seu minuto,
Cada qual com seu jamais.
Ronda que ronda, o rondó
Nunca acaba de acabar —
A multidão está só
No viaduto do Chá.

Luiz Roberto Guedes é poeta, escritor e tradutor. Publicou, entre outros, Calendário Lunático/Erotografia de Ana K (Ciência do Acidente, 2000) e organizou Paixão por São Paulo — antologia poética paulistana (Editora Terceiro Nome, 2004). Lançou recentemente a aventura juvenil Armadilha para lobisomem (Cortez Editora, 2005) e prepara o lançamento da novela O Mamaluco Voador, pela Travessa dos Editores, de Curitiba. É também letrista sob o pseudo de Paulo Flexa.

Poesia - Santiago de Novais

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

O Bloco De Quarta De Cinzas

ooo êeee! vai sair o bloco! olofom de bofe branco! axé!

ôOO meu senhor! Que maracatú!

E precisa Jesus morrer na cruz? E precisa madama gostar de samba?
Se o Senhor perdeu tempo. Foi preto que ganhou:
transformou esta terra em terra de preto
de batuque de pau grande, de branco virando preto!

primeiro: tudo era de preto e perfume de colônia,
brazil não entendeu:
escurinho, carvão, tiziu, urubu, nêgo, kilombo, meia noite,
e do alto do morro até o embaixo do morro só tem muque!

nem oxum perdoa! Tem loirinha falando ti amu pra preto!

ah, que axé! se madama não gosta de samba
é como se xapólim fosse sempre o presidente do brasill
e Zumbi demorasse pregado na cruz!!

diz ae negritude:
se madama vem no terreiro o que é prá sentir?
neca odara? ocó dun dun? ocó erê? nego zalene?
ou preto? o preto não é o tambor, ou é? u tambor? gonguê?
Eu sinto tudo e sinto muito...porque tudo sinto, tudo sinos.

terça gorda tem gringa no samba, tem madonna na sapucaí,
todo mundo acha chique, preta não sai, preta aparece, os preto zanzando
mas quando encontra os nigerianos na São João
morre de medo de ser traficante, zuado! mas no fim o preto vence!

Eu zumbi branco traficante de manhãs de sandálias na mão tão bonitas manhãs.
Disse bravo: Nem só de preto vive o preto e nem o senhor! E esta
maozinha preta pedindo bala pro folião soluçando bicarbonato? Eu.

êÊêÊê lá râi (pois é prá senti tudo – não sou madama) (sou preta)

Santiago de Novais, nasceu em Minas, Campos Gerais. É professor de idiomas, tradutor, educador e poeta.

Poesia - Sandra Ciccone Ginez

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Koki Morimoto, With Respect to Area 20-2, Acrylic, 28" x 23", 1999


Clicks de Íris

a mente revela
o que a câmara apreende
distorções em preto e branco
gamas de cinza
mente quem diz que
pedriscos
não são partes
integrantes
de uma íris

distorções
porque o foco
é invenção do vício

Poesia - Dorival Fontana

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Andres Barrioquinto, Burn Baby Burn, Oil on canvas, 2x2 ft, 2007


Convicção

I

O que fazer?
Se o mundo perfeito,
É um caso incerto
Com tantos defeitos?
Tudo certo e tudo errado,
Que por acaso
Ou por descaso
Desconheço!

Toda certeza é dúbia,
Ora questiona, ora afirma...
Todavia, insere
Certas interrogativas.
Precisamente
Nada elucida.
Implícitas ou explícitas,
Imprecisa em dúvidas!

II

O que dizer?
As mesmas palavras
Ou outras não ditas?
Alguma verdade
Ou toda mentira?
Tagarelar em silêncio,
O mero sentido
Que não se explica.

O óbvio entretanto,
Confunde a tantos,
Fragmenta o todo,
Ora real, ora irreal...
Onde tudo é tão pouco,
Lúcido e cônscio,
Racionalmente
LOUCO!

Poesia - Rafael Mantovani

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Ruth Gilmore Langs, Release, Oil on Canvas, Painting


noite

ficam os anéis, vão-se os
dedos.

o direito de uso da sua escrivaninha,
suas palavras escritas,
do seu olho, também,
um dia finalmente despertencerá.

cuide bem das suas coisas
por respeito
aos amigos e filhos, vizinhos,
ao catador de lixo, ao ladrão.
cuide bem do seu humor
por amor
ao seu irmão.

Rafael Mantovani nasceu em São Paulo. É também tradutor e publica no blog http://mantovanimantovani.blogspot.com

Poesia - Túlia Lopes

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Don Salubayba, "Flight", Oil on Board, 122 x 61 cms., 2000


Tadinha…

Em todos lugares que ela ia
Ali ficava, sentadinha, caladinha, observandinho, tudinho,
Pra depois fazer a sua análise detalhadinha
Que só a ela servia

Pois ela insistia
E acreditava, que aquela alegria
Que muitas daS genteS transmitia
Era nada mais que distorções de caráter
Para esconder uma certa agonia

Mas o que ela não percebia
É que quanto mais analisava
Mais o tempo passava
E as pessoas partiam
E ela ali ficava
Resolvendo a vida dos demais
Pensando que eles nada sabiam

E ela sabendo tudo, nada fazia
Mas via a vida dos demais muito vazia

Elas os observava…

- Que vidinha!

Eles a miravam…

- Tadinha!

Poesia - Adriana Pessolato

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Ilustração de Adriana Pessolato


Corpo

gosto de rosto tocado
enfoque do disfocado
desfigurado, toma forma
encorpado sem retoque
desperverte quando morre
regenera quando molha
renova os ares de amora
transforma em jasmim
enfeite de mim em curvas
de movimentos amorais

Adriana Pessolato nasceu em Sao Paulo. É artista plastica, arte educadora e psicologa. Vive e trabalha em Paris. http://apessolato.carbonmade.com

Crônica - Roniwalter Jatobá

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Nathan Sawaya, Untitled 1, Plastic Bricks, Sculpture


Sonho na escuridão

Depois de um difícil dia de trabalho nas imediações do Teatro Municipal, o soldado Otacílio Silveira Lima voltou para casa na Vila Ré, onde morava com a mulher e três filhos. Após o jantar, viu televisão até bem tarde, entretido com um filme de suspense. À noite, sonhou que fazia parte de um pelotão escalado para expulsar um grupo de moradores, incluindo sua família, de um terreno da prefeitura às margens do Tietê.

No sonho, acorda de madrugada. Senta na cama e passa um pedaço de pano na testa molhada de suor. A mulher ao lado dorme o segundo sono, quatro da manhã em ponto, rosto virado para a parede branca da moradia simples. Ele veste a farda, o pensamento longe no quartel, e se prepara para a missão mais complicada de sua vida. Conhece tudo dali, dos buracos das ruas à rotina dos moradores.

Quando se boatou que a prefeitura ia precisar daquela terra para uma estrada de carros, um prédio com vista virada para o rio, todo mundo logo pensou na pior. Aí, na semana seguinte, de segunda a sexta, funcionários vieram de casa em casa com a intimação para desalojar. Os servidores só entregando a papelada, depois viravam as costas e iam embora.

Uma tarde, um morador perguntou para outro:

-- Quando vai ser?

Um deles, choroso, respondeu:

-- Domingo. Ninguém deve sair.

-- Ir pra onde, meu Deus? -- indaga uma mulher, lamento que ninguém ali ouviu.

Otacílio sonha agora que começa a despertar para o dia do despejo, vista pesada acorda-não-acorda, a barba do dia anterior espetando as mãos. Logo, o cabelo penteado às pressas, o café ligeiro na garrafa térmica, o até logo para a filha mais velha, já acordada. Farda com vinco, coturno lustrando, ele pisa forte a caminho do quartel. Cruza com pessoas conhecidas que olham para ele com ódio, depois somente vultos desconhecidos passando de longe. O soldado Otacílio cada vez mais se afasta de casa e da mulher que revira na cama, mas continua a dormir num sono agitado.

Ainda no sonho, o soldado Otacílio chega ao quartel logo cedo. Entra já sabendo de tudo, sem abrir a boca, calado. Caminhou para o pátio e entrou em forma. Esperou. Ordens? Sim.

O coronel Guedes gritou na frente -- sentido! -- todos uniram as pernas, os braços grudados ao corpo -- marche! -- os pés de todo o pelotão comandados, guiados pelos brados -- rápido! rápido -- subindo o grito, subindo os homens nos caminhões.

Otacílio, passos pesados, sofre um aperto no coração, mas acompanha os outros policiais. Logo, o caminhão que o transporta sacoleja nas ruas esburacadas e salta duro nas ruas de terra batida, agora enlameadas.

Na várzea do Tietê, foi perdendo a mansidão das vozes dos moradores, entre eles os mais antigos, Biju, Jesuíno e Maria de Lourdes. Lurdinha, como era chamada, se espantou de vez com o aparato, mais ainda quando os soldados saltaram dos caminhões e dobraram a pé a subida do morro, quase chegando na estrada de ferro. Em seguida, desceram velozes, pés batendo fortes na lama das poças d’água paradas no meio da rua.

Lurdinha sabia: não era festa militar, não era brincadeira. Sai todo mundo por bem ou por mal, tinha dito o homem da prefeitura.

O soldado Otacílio é o último do grupo a chegar aos barracos. Ele avista sua mulher e os filhos na porta da casa, sombras paradas no meio do burburinho.

-- Bunda mole -- grita um policial superior para ele, que se afasta margeando a casa de Lurdinha, sem nada nas mãos, se escondendo do pensamento que lhe vinha subindo no peito e crescendo desde a subida no caminhão no interior do quartel.

-- É o fim do mundo, é o fim do mundo -- começa a gritar Otacílio, mão amassando o quepe suado. -- Vai. Passa por ali. Pisem na água parada do rio Tietê que ninguém se afunda nela. A nossa terra, vê lá, é do outro lado -- ele continua aos gritos, mas tem a impressão que poucos entendem o que ele fala.

Em seguida, o soldado Otacílio acorda de verdade, banhado em suor na sua casa na Vila Ré. Levanta-se e certifica-se se os filhos estavam em paz na quente noite de verão. Depois, volta, empurra um pouco a mulher para o outro lado da cama e continua a dormir. Retorna ao mesmo sonho, mas agora ele está à frente do pelotão e abre a porta da casa do invasor de terras com a coronha do seu fuzil.

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

O Cantor Soluçante

Primeira Parte

Gustavito Ramirez era o que se costuma chamar de sujeito esquisito, depois de uma infância tranquila na cidade de Santiago Suchilquitongo (no estado de Oaxaca,México), sua família se mudou para o interior de Goiás, mais precisamente para Goianira, após passar a adolescência nesta cidade, ouvindo no rádio os sucessos da Jovem Guarda, o nosso protagonista rumou para Villa Luzuriaga na Grande Buenos Aires, onde exerceu o ofício de marceneiro enquanto sonhava em se tornar um lutador de boxe, imaginando seu nome estampado nos letreiros do Luna Park para a grande luta valendo o cinturão mundial dos médio-ligeiros... mas após ingressar para um grupo político radical, Gustavito foi perseguido pelo regime militar, tendo que exilar em Cork, na Irlanda onde trabalhou como estivador... após juntar algum dinheiro ele arrendou um Pub... nesta altura do campeonato o nosso amigo já havia esquecido de tentar a sorte nos ringues e decidiu se dedicar a música, sendo que após aprender violão, passou a se apresentar no seu Pub, já batizado de “Youth Guard´s Little Corner” com um repertório das canções que aprendera no Brasil misturado com os boleros mexicanos (que sua mãe costumava cantar) e também alguns tangos... sua peculiaridade como cantor era que Gustavito Ramirez desenvolveu uma técnica de marcar o compasso das música com soluços...

Segunda Parte

Passados muitos anos ele não aguentava mais o cheiro de Kidney Pie, se desfez do Pub e resolveu montar uma pousada no interior do Brasil, mas ao invés de Goiás ele preferiu se instalar no sul de Minas Gerais, em uma cidadezinha chamada Bueno Brandão... No entanto Gustavito não era feliz pois ainda não havia conhecido sua cara metade... Um dia ao nascer do sol enquanto plantava algumas mudas de lavanda no jardim da pousada ouviu um sapateado flamenco vindo de uma das habitações... percebeu então que a dançarina marcava o compasso com tosses ritmadas... ficou muito curioso para conhecer a hóspede, pois na noite anterior havia ido até Ouro Fino comprar alguns equipamentos e deixara sua funcionária Jacira encarregada de recepcionar os turistas... Jacira, quem é que está no quarto 7??? É uma moça que chegou ontem, é muito bonita, dotô...parece até artista de novela... Gustavito ficou ainda mais curioso... mais tarde quando tirava do forno um pão de gema oaxaquenho (receita que lhe fora ensinada pela avó) viu a beldade se aproximar... - Nossa este pão está cheirando bem!!! Me desculpe a intromissão, mas era você que estava dançando flamengo ao nascer do sol, senhorita??? Sim, mas estava apenas taconeando, isto é, dando uns passinhos, se estivesse dançando mesmo iria fazer muito barulho... Onde você aprendeu a dançar??? Em Guaja de Faragüilt, na Andaluzia... Hablas español? Si, como no! A conversa se estendeu durante horas e horas... a nossa protagonista contou que se chamava Mercedes Gonzales Carbajal e que saiu da Andaluzia na adolescência, rumando para Akçaabat no litoral da Turquia (junto o mar Negro), no entanto não conseguiu se adaptar e depois de uma complicadíssima estória (que não pode ser contada aqui, uma vez que é muito extensa) foi parar em Fray Bentos na República Oriental do Uruguai, lá foi proprietária de um restaurante que servia tanto especialidades andaluzas como também delícias da culinária turca (com destaque para o Ayva Yahnisi, um cordeiro ensopado com marmelo de dar água na boca). Cansada daquele país onde tudo acontece muito devagar, Mercedes resolveu vir para São Paulo onde abriu uma nova casa, agora incorporando a culinária uruguaia também... Num dado momento da conversa ele disse: Ahora hablemos en português!!! Nós somos muito esquisitos, muito exóticos, não somos verossímeis... o leitor provavelmente pensará que este conto não engrena... Borges diz que os leitores devem acreditar que os personagens vivem além do que o autor escreve sobre eles, por exemplo, nos momentos que os leitores não veem determinada personagem estes devem imaginar que a personagem dorme, sonha e exerce outras funções, caso contrário a personagem se torna irreal!!! Nossas vidas são muito malucas... nós definitivamente não somos reais... na verdade isto não passa de uma grande palhaçada.... Não, não é bem assim - respondeu ela – vamos ler a primeira parte do conto... Depois da lerem a primeira parte deste conto ela pediu um café e continuou com o seu argumento: Se não somos reais, ninguém é real uma vez que, parafraseando o mesmo Borges, tanto nós quanto o leitor leram a primeira parte de conto, o que nos torna iguais, de modo que se para o leitor nós somos fictícios, para nós quem é fictício é o leitor, então todos nós somos irreais... Mas nós somos reais... replicou ele dando um leve beliscão no braço dela - Não dói??? - Dói... - Então qual a sua verdadeira identidade??? - É Jussara Mainara, e a sua??? - É Ubiratã Ubirajara... - Nossa, até rima... - Quem sabe não seja... - Uma solução...

José Geraldo De Barros Martins é de São Paulo. Músico, pintor e escritor, desde 2001 publica seus desenhos e escritos no blog http://zegeraldo.free.fr.

Conto - Jeanette Rozsas

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Kiko Escora, "Untitled", Acrylic on Canvas, 122 x 91, 2002


Fugidias

Quando o crisol se pôs atrás do grande gnômon, raios de ouro se espalhando pela caferana insípida, pensei em você, meu ergástulo, minha enxovia, e a saudade avançou serena e ríspida, como café-bravo em noite de novilúnio.

Lembrei, amado, daquela última vez em que juntos vimos o canguçu se esgueirar pelo asfalto e a iritacaca subir lentamente pelo caule do cacundeiro, agarrando-se às lanosidades da madeira como se fossem corpos de homens já defuntos, cheios de amor para dar. Enquanto isso, nós dois, pobres opróbrios solitários, nos atirávamos um ao outro, náufragos em dia de tormenta, buscando o outrora de nossas vidas; sem perífrases ou atoledos a ocultar as sífilis do verdadeiro desencanto, mal sabíamos que naquele momento nos tocaiava a câmara-ardente de nossos destinos desatrelados.

Daquele encontro, amor, o último que tivemos, sortilégio pranto resultou em vida, e assim, meses depois, veio a lume aquela que seria nossa filha, estonteante bem-fazeja, a fada dos meus dias de prumo norte.

Mas por pouco durou o solstício, pois a comunidade via, no ditoso, o malprocedido, e dos braços arrancaram-me a pequena ave- pássaro, transformando o encanto em pungente desdita e em incessante busca. Eneândria, esse o seu nome, ao menos para mim, coração materno, pelo tanto que eu soubesse, poderia estar morando em algum medronheiro distante; no entanto __ai de mim __ estava lá mesmo em Aleatória, terra de nosso amores, a menos de uma olha da chicana de onde me foi enfestada.

Quis o destino que a fome à minha cimba batesse, e assim fui peregrinando trabalho nas circunjacências. Cansada de andar por casquilharias e defluxos, já no tárdego do dia, quase anoitecendo, estanquei diante de imponente ratafia de estilo neocíclico, situada sobre deganha espraiada, de onde se insurgia toda a cidade, numa visão verdadeiramente endoparasítica. Eu pensava em Eneândria todo o tempo, e, por via de consequência, naquele que a enfestou: você, amado meu. Eis quando a porta se abre e vejo um jardim cheio de crestadeiras que crepusculejavam no frâncico da entrada. Um mor-dobre , carregando um chumacete, pergunta-me, altivo, o que desejava. __Comida__ respondi,__ e trabalho; se possível, uma enxerga onde possa descambar meus ossos nodosos.

Com toda a filustria, o dobre deixou-me quedar ali e logo me apresentou sua filha hermosa, de nome Grindélia, tão linda e da mesma idade de nossa Eneândria, se não me tivesse sido evolada sob o mantispídeo de algum feiticeiro madrasto. Logo passei a dedicar a Grindélia o amor que por direito reservara à nossa filha, a um tal ponto que o mor-dobre, enciumado de minha parvuleza, providenciou meu imediato partino. Ah, que injusto fado o de me ver novamente pulseando pelos descaminhos da vida, sem saber onde encontrar os dois tesouros do meu existir, doces arabescos esfumaçados num véu de bruma, que, no entanto, eu não perdia a jaza de vir a reencontrar. Você e Eneândria, amado meu, haveriam de voltar, e eu sonhava com esse dia, quando então uma persofonia de pássaros nos carregaria em êxtase, sobrevoando felizes, aquecidos pelos raios seladoiros que do grande gnômon aspergiriam.

Assim começou minha entrecha por esse vasto mundo em mendicância fradalhada, até que uma horda de bamburristas, trajando cochonilhas brancas, me entrebateram, casulando-me nesta albergaria nada hospitaleira, onde mentecaptos menoscabam minha melúria e, através de poções e tisanas morfíneas, descocam qualquer clamor, chamando-me de louca, imagine, de louca...

Jeanette Rozsas é contista e romancista. Tem trabalhos publicados em revistas literárias do Brasil e do exterior e colabora com os principais sites de literatura. Publicou, entre outros, os romances As sete sombras do gato (Idea Editora) e Morrer em Praga (Geração Editorial), selecionados pelo Projeto de Apoio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura. Seu romance biográfico Kafka e a marca do corvo (Geração Editorial ), lançado em maio de 2009, já está na segunda edição e vem recendo o aplauso da crítica especializada.

Conto - José Miranda Filho

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Alex da Silva, "Lhe Falo do Sertão", 2009, acrylic on canvas, 32" x 32"


O Retrato do Sertão - 1

O sertão brasileiro, recanto imensurável de planícies desertas é a região que ostenta o menor índice pluviométrico do país. A escassez de chuvas deve-se a influência nefasta do relevo. Entre os meses de outubro e março, ocasionalmente pode ocorrer chuvas em algumas áreas. Mas são os ventos alísios que sopram do hemisfério norte que trazem perspectivas de chuvas entre os meses de dezembro e abril. Porém, nem sempre isso acontece e a estiagem pode se prolongar por meses e anos, dando origem à seca e causando tragédias cíclicas, tempo em que o sertanejo com o coração partido, abandona suas terras, sua família e migra para outras regiões em busca da sobrevivência. O imbuzeiro e o mandacaru começam a dar sinais de cansaço, enquanto o urubu revigora seus vôos à procura de carcaças de animais abatidos pela sede e escassez de alimento. Alguns frutos sobrevivem para não estarrecer de vez a esperança do sertanejo.

O sertão brasileiro abrange grande parte dos Estados do Nordeste, região que nos inspirou esta narrativa. Nesse rincão de antigo domínio europeu surgiram as primeiras revoltas de inconformismo do povo nordestino: Desde o motim dos Quilombos à revolta de Canudos, até o cangaço de Lampião. Dos inúmeros rios, riachos, açudes e brejos existentes, alguns são temporários, enquanto outros sobrevivem graças à benesse da natureza que lhes dá origem em Estados de maior relevância e de alto índice pluviométrico. Assim vive o sertanejo cercado de lendas e de lutas.

Apoiada numa bengala de pau com solado de couro de boi para não escorregar, ela se dirigiu ao alpendre da casa construída de taipas, e sob a janela sentou-se num banquinho de madeira de três pés feito por um dos filhos. De lá observava e comandava todo o movimento do roçado. Com mãos trêmulas pegou o cachimbo de barro, colocou o pouco do tabaco que ainda restava do bornal, deu duas baforadas esfumaçadas que se esvaíram rapidamente no ar e cuspiu longamente sobre o piso de chão de barro empedrado pelo tempo. Ao seu redor algumas galinhas ciscavam a procura de restos de alimento que se juntou na toalha retirada da mesa de madeira e lancada no terreiro. Sentiu-se Nhá Marina naquele momento aliviada dos percalços da vida. Prendiam lhes os cabelos brancos e escassos que ainda lhes restavam, um atavio de chifres de boi, enfeado, velho e descorado, recordação dos tempos de mocinha.

Nhá Marina, como todos a conheciam, cujo nome de batismo era Maria Ferreira de Albuquerque Santiago tinha 102 anos de idade. Nasceu em 1908, nos arredores do município de Angico, sertão de Alagoas, no sitio Poços dos Anjos. Viúva por duas vezes, teve dez filhos e oito netos. Bisnetos estavam por vir, filhos de Agamenon e Giselda. Ao anoitecer, sob a luz das estrelas e da lua quando era verão bruto no sertão, rodeada pelos filhos e netos gostava de contar a saga de Lampião que o conheceu quando tinha doze anos de idade.

Naquele pedacinho de terra, cizânia do sertão bravio esquecido de todos e longe da civilização, ela criou os filhos com ajuda do segundo marido, Zé da Vila, cabra macho por quem se apaixonou quando o conheceu numa festa de São João. “O primeiro marido, pai de sete dos seus dez filhos, havia morrido por uma chifrada do boi “cabreiro”,um dos zebus mais ferozes do “seu” Quincas”, fazendeiro, compadre e amigo para quem trabalhava.

-Bás tarde Nhá Marina, como vai? Disse Zequinha da venda.

Ergueu os olhos assustada, e num ímpeto de curiosidade, indagou:

- Quem é você?

- Sou o Zé, filho de Maninha...Zequinha da venda. Vim trazer umas coisinhas que a mãe mandou pra Senhora.

-Senta aqui, meu fio. Como vai sua mãe?

- Ela lhe mandou lembranças e recomendou-lhe repouso.

- Pois diga pra sua mãe que é ela quem precisa de descanso. Eu tô muito bem, de manhã já dei mio pras galinhas, pras cabras, rocei, cuidei do terreiro, da chafurda, fiz o armoço prus fios, e agora tô baforando meu cachimbo.

Diante disso, Zé da venda, entregou-lhe a encomenda e se mandou, mais ligeiro do que chegou.

Catou os óculos de casca de tartaruga confeccionados por um artesão local, o mesmo que talhava as peças de Lampião, e colocou-os sobre os olhos verdes e grandes, até que pudesse abrir pacientemente a sacola com as mãos rígidas e calosas que os anos lhe proporcionaram.

Nhá Marina contava que quando tinha doze anos, Lampião e seu bando chegavam de repente nas redondezas e aliciavam jovens como ela e as levavam ao acampamento para participarem das rodilhas que costumavam fazer depois de investidas vitoriosas aos sítios da região.

Certo dia já tardezinha, os cabras de Lampião vieram à sua casa e com a permissão do pai, levou-a com os olhos vendados para não identificar o lugar.

- Numa noite linda de lua cheia, eu, Izilda, Mariinha, Elzirinha, Manelita e Estelinha, estávamos brincando de rodas no terreiro quando ouvimos o tropel de cavalos se aproximando - contava Nhá Marina aos filhos e netos.

- Chegaram na maior confusão e foram logo apeando dos cavalos e perguntando pelo pai.

- Cadê o compadre Zé? Quis saber um dos cabras de nome Colchete.

- Ele está na chafurda cuidando dos porcos, respondeu Nhá Marina, enquanto as outras meninas correram para o jirau temerosas de serem molestadas.

Com o consentimento de Zé Ferreira, pai de Nhá Marina, elas foram levadas ao esconderijo de Virgulino para participarem da festa de seu casamento com Maria Bonita.

Dançaram e se divertiram a noite toda com os “cabras” que chalaceavam ao redor da fogueira ardente, no esconderijo, em meio a mata virgem.

- Naquela noite, sob estrelas luzentes no meio da caatinga ao entorno da fogueira, dançamos com os cabras, alguns já embriagados de tanto beberem – prosseguia Nhá Marina com suas estórias. No dia seguinte, ninguém queria voltar pra casa. Queríamos que a festa continuasse, de tão boa que estava. Comida não faltava, tinha de tudo: bode assado, cabrito, carne de boi, feijão, doce de mandioca, milho assado...e a sanfona adoidada que Corisco escorregava nos dedos, contava baforando o cachimbo de barro que rolava de um canto ao outro da boca desdentada.

Quando alguém lhe perguntava se não sentiram receio de serem molestadas, ela respondia com um sorriso maroto que ia de um canto ao outro da boca:

- O capitão Virgulino era um homem sério, honesto e de palavra. Em nenhum momento fomos “bulidas”, graças à vigilância que ele sempre mantinha sobre seus cabras. Terminada a festa, ele ordenou que nos trouxessem de volta para casa, cada uma montada na garupa de um cavalo. Recomendou aos cabras que não esquecessem de agradecer a nossos pais pela confiança e o respeito que tinham por ele.

Cada menina recebeu um mimo do Capitão, contava Nhá Marina. O dela era uma tiara confeccionada em chifre de boi ornada com pequenas estrelas de prata que guardava cuidadosamente num baú de madeira debaixo da cama, ao lado do pinico de zinco. Tanto se orgulhava de usá-lo que ao colocá-lo sobre os escassos cabelos brancos, ficava horas e horas diante do pequeno espelho pendurado à cabeceira de sua cama. Usava-o notadamente nas festas de São João e cantorias de rodas nas noites de lua cheia no terreiro de chão seco...

Crônica - Leonardo André Elwing Goldberg

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Carlos Meinardi, Filhos da terra, acrílica s/ tela c/ limalha de ferro

Filhos da Terra

O que eu consigo ver são botas. Bem lustradas. Largas passadas são dadas ao destino que não conheço.

O tecido dá forma às pernas musculosas, de homens bem alimentados. De alimento, só conheço banana. Algo que lapidou nosso apelido: “República de Bananas”. Talvez por termos tantas bananas, talvez por acreditarem que parecemos macacos. Macacos ameaçadores.

A vontade é de gritar: L'Ouverture! Mas agora, quem oprime, quem zomba, também é quem alimenta. Estamos totalmente dependentes, de novo.

Acham que somos assassinos.

Mas não fomos nós que começamos a matança. Não colocamos Papa Doc nem o seu pequeno monstrinho no poder e o sangue ainda jorra por todos os lados. Sangue expesso! Sangue negro!

Os mesmos que nos alimentam hoje, foram nossos carrascos. Moralmente, o que fazem por nós é o minimo.

Nossos poetas cantaram, pediram pra voltar. Laleau não escrevia com a caneta, escrevia com lágrimas. Gostaríamos de voltar para nossa mãe.

Mas agora tudo foi por água a baixo. As poesias, os desejos, a reconstrução. O que resta são milhares de largas passadas, das botas, lustradas. Inglêses, portuguêses, alemães, americanos. O francês que ecoa em tom choroso é o mesmo escutado outrora na Argélia.

Adeus, meu Deus. Meu deus.

Leonardo André Elwing Goldberg é Acadêmico de Psicologia.

Tradução - Eduardo Miranda

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010
Cecilia, de Antonio Gamoneda, é um pequeno livro, o número 10 da coleção “Péñola Blanca” de poesia, publicado pela Fundación César Manrique, da qual foram impressos apenas 400 exemplares, em papel artesanal Velin D'Arches, branco. A ilustração da edição é de Alberto Corazón. Encadernado artesanalmente por Sánchez Álamo, durante as comemorações de San Marcial, a 30 de Junho de 2004, quando veio à luz nas oficinas gráficas da Cromoimagen, em Madrid.
Cecília - Antonio Gamoneda

Dormes sob a pele de tua mãe e seus sonhos penetram em teus sonhos. Despertarás na mesma confusão iluminada.
Ainda não sabes quem és, estás dividida entre tua mãe e uma palpitação vigorosa.

*

Desaguavas na escuridão; era mais suave do que existir.
Agora, que uma lágrima muito viva poderia ferir seu rosto,
prudente vais para si mesma.

*

Como se te estabelecesses em meu coração e tivesse luz dentro de minhas veias e eu enlouquecesse suavemente, é tudo exato em tua clareza:

te aportaste em meu coração,
corre luz por minhas veias,
enlouqueci suavemente.

*

Sob os salgueiros
tomo-te em meus braços e te sinto viver.
Depois saímos para a luz e, pela primeira vez,
vês o céu, aponta para ele e quer dar-lhe um nome.

É verdade, na extremidade de tuas mãos,
o céu é grande e azul.

*

Acheguei meus lábios a tuas mãos e tua pele tinha a suavidade dos sonhos.
Algo como a eternidade tocou meus lábios por um instante.

*

Algumas tardes o crepúsculo não ilumina teus cabelos;
não estás em lugar nenhum e fala por palavras cujo significado desconheces.
Meu pensamento também é assim.

*

És como a pomba que cisca a terra e se levanta e se afasta na luz.
Atravessas um resplendor
e eu te amo de longe.

*

Vais voltar
"quando nasçam as cerejas e desperte a rolinha.
Desenhaste o mundo numa mentira brilhante.

Eu vi os olhos das rolinhas avermelhados de raiva,
Sei que o loureiro possui ácido cianídrico
e que seus frutos imobilizam o coração dos pássaros.

Mas há cerejas escondida na neve e
ouço o lamento da rolinha.

*

Chove grãos de ouro
e os perfumes de março envolvem nossos corpos.

É como em teus olhos;
chove através da luz.

*

Com as mãos guiadas por uma música que vagamente se lembra,
diz adeus no portal. Ah tola doçura,
diz adeus no portal e se desprende de tuas mãos
um instante sem limites.

*

Entra em tua mãe e abre nela tuas pálpebras,
entra lentamente em seu coração.

Volta a ser fruto no silêncio. Sejas
como uma árvore que envolve a palpitação dos pássaros
e se inclina, e descendem o perfume e a sombra.

*

Em teus lábios formam-se palavras desconhecidas
e o invisível gira em torno de ti delicadamente.

*

Seu rosto sai do espelho como uma asa que abandona o instante. Eu amo teu rosto no espelho; eu
amo quanto estás me abandonando.

*

Ouço teu canto.
Subo aos quartos onde a sombra pesa nas madeira imóveis, mas não estás: só estão as savanas que embalaram teus sonhos.
Tudo em mim já é extinção?
Ainda não. Mas além do silêncio,
ouço outra vez teu canto.

Que estranha se tornou a existência:
sorris no passado
enquanto sei que vivo porque te ouço chorar.

*

Com sua língua perfurada por uma ignorância aparente falas de uma flor invisível. Falas de si mesma.
Nunca tive em minhas mãos
uma flor invisível.

*

Eu estava cego na lucidez mas dissimulaste a loucura.
Tudo é visão, tudo é livre de significado.

*

Teus cabelos em minhas mãos, seu resplendor atravessado por enxames invisíveis, por instantes que não deixam de me abandonar;
teus cabelos entre duas falsas eternidades.
Ah estranheza lenhosa, teus cabelos
em minhas mãos.

*

Estás sozinha em sí, debaixo de tua luz, chorando.
Há uma pétala ferida em teu rosto
Flui
teu canto em minhas veias. Tú
és minha enfermidade e tú me salvas.

*

Olhas a neve sobre as folhas do loureiro. Reténs em teus olhos a brancura e a sombra e repares o silêncio dos pássaros.
Sei que os pássaros fugiram, que não voltarão e que existes bem além dos meus limites.
Tú és a neve.

*

Sobre a piscina
as pombas voam em torno da tua cabeça.
Quando suas asas roçam teus cabelos, eu me inclino e vejo tua claridade na água
e eu estou na tua claridade e me desconheço:
estou coroado de pombas
dentro da água. Em ti.

*

Sonhas.
Tens medo do que não existe e ouves gemidos em jardins negros.
Eu também tenho medo do meu rosto que vai se tornando invisível.
Pare de sonhar, ou, melhor, sonhe os rostos que estão fora de ti:
olha para mim.

*

Em teus olhos se imobiliza a tristeza; não é ainda tua tristeza, mas me olhas
e dos teus olhos caem uma pétala de sombra.

*

Te esqueces de me olhar; ah, cega lenhosa.
Teus braços se afastam de mim, mas eu fujo de mim em teus braços.
Teu pensamento me ignora
mas eu sou teu pensamento.

*

Como música cujo silêncio ainda permanece sinto tuas mãos distantes em mim.
Assim é
o exílio e a doçura.

*

Não é o grito dos pássaros além das sombras
nem o tremor do enxofre na quietude da tormenta;
não é o mercúrio em minhas veias
nem a espessura do verão em meu coração.
Não é nada realmente: teu rosto abandonou meus sonhos
e não te encontro sob minhas pálpebras.

*

Temes minhas mãos
mas às vezes sorríes e te extravías em ti mesma
e, sem o saber, espalha luz ao redor de si
e eu apresso minhas mãos mas não chego a te tocar; apenas
acaricio tua luz.

*

Fugiu de mim.
Talvez esteja em ti e apenas o sintas em teu pequeno coração.
Sim; é uma sombra; não
pesa em teu coração.

*

Disses: "a luz virá". Não é sua hora
mas desconheces a impossibilidade:
pensas a luz.

*

Estarei em teu pensamento, não serei mais que uma sombra imprecisa;
terei existido num instante em que a alegria e a piedade ardiam em teus olhos.
Mas também quero permanecer desconhecido em ti.
Desconhecido. Simplesmente envolto em tua felicidade.
Tú distraída em tua luz e eu apenas vivendo nela, e assim, imperceptivelmente amado, esperar a minha hora.
Ainda que embora estejamos já separados por um fio de sombra e cada um está em sua própia luz
e a minha é a que tú vai abandonando.

*

És como uma flor ante o abismo, és
a última flor.

Cecilia

Duermes bajo la piel de tu madre y sus sueños penetran en tus sueños. Vais a despertar en la misma confusión luminosa.
Aún no sabes quién eres; estás indecisa entre tu madre y un temblor viviente.

*

Fluías en la oscuridad; era más suave que existir.
Ahora, cuando una lágrima demasiado viva podría herir tu rostro,
vas cautelosa hacia ti misma.

*

Como si te posases en mi corazón y hubiese luz dentro de mis venas y yo enloqueciese dulcemente; todo es cierto en tu claridad:
te has posado en mi corazón,
hay luz dentro de mis venas,
he enloquecido dulcemente.

*

Bajo los sauces
yo te llevo en mis brazos y te siento vivir.
Después salimos a la luz y, por primera vez,
tú ves el cielo y lo señalas y lo nombras.

Es verdad; en el extremo de tus manos,
el cielo es grande y azul.

*

Acerqué mis labios a tus manos y tu piel tenía la suavidad de los sueños.
Algo semejante a la eternidad rozó un instante mis labios.

*

Algunas tardes el crepúsculo no enciende tus cabellos;
no estás en ningún lugar y hablas con palabras cuyo significado desconoces.
Así es también mi pensamiento.

*

Eres como la paloma que roza la tierra y se levanta y se aleja en la luz.
Tú atraviesas un resplandor
y yo te amo desde lejos.

*

Vas a volver
“cuando nazcan las cerezas y despierte la tórtola”.
Has dibujado el mundo en una mentira luminosa.

Yo vi los ojos de la tórtola enrojecidos por la ira,
sé que en el lauro habita el ácido prúsico
y que sus frutos inmovilizan el corazón de los pájaros.

Pero hay cerezas ocultas en la nieve y
oigo el gemido de la tórtola.

*

Llueve en hebras doradas
y envuelven nuestros cuerpos los perfumes de marzo.

Sucede como en tus ojos:
llueve a través de la luz.

*

Con tus manos conducidas por una música que vagamente recuerdas,
dices adiós en el umbral. Ah insensata dulzura,
dices adiós en el umbral y de tus manos se desprende
un instante sin límites.

*

Entra en tu madre y abre en ella tus párpados,
entra despacio en su corazón.

Vuelve a ser fruto en el silencio. Sed
como un árbol que envuelve la palpitación de los pájaros
y se inclina, y descienden el perfume y la sombra.

*

En tus labios se forman palabras desconocidas
y lo invisible gira en torno a ti suavemente.

*

Tu rostro sale del espejo como un ala que abandona el instante. Yo amo tu rostro en el espejo; yo
amo cuanto me está abandonando.

*

Oigo tu llanto.
Subo a las habitaciones donde la sombra pesa en las maderas inmóviles, pero no estás: sólo están las sábanas que envolvieron tus sueños.
¿Todo en mí es ya desaparición?
No aún. Más allá del silencio,
oigo otra vez tu llanto.

Qué extraña se ha vuelto la existencia:
tú sonríes en el pasado
y yo sé que vivo porque te oigo llorar.

*

Con tu lengua atravesada por una ignorancia luminosa hablas de una flor invisible. Hablas de ti misma.
Nunca tuve en mis manos
una flor invisible.

*

Estaba ciego en la lucidez pero tú has hecho girar la locura.
Todo es visión, todo está libre de sentido.

*

Tus cabellos en mis manos, su resplandor atravesado por enjambres invisibles, por instantes que no cesan de abandonarme;
tus cabellos entre dos falsas eternidades.
Ah extrañeza llena de luz: tus cabellos
en mis manos.

*

Estás sola en ti, debajo de tu luz, llorando.
Hay un pétalo herido en tu rostro.
Fluye
tu llanto en mis venas. Tú
eres mi enfermedad y tú me salvas.

*

Miras la nieve prendida en las hojas del lauro. Retienes`en tus ojos la blancura y la sombra y adviertes el silencio de los pájaros.
Yo sé que los pájaros han huido, que no van a volver y que tú existes más allá de mis límites.
Tú eres la nieve.

*

Sobre el estanque
las palomas giran en torno a tu cabeza.
Cuando sus alas rozan tus cabellos, yo me inclino y veo tu claridad en el agua
y yo estoy en tu claridad y me desconozco:
estoy coronado de palomas
dentro del agua. En ti.

*

Sueñas.
Tienes miedo de lo que no existe y oyes gemidos en jardines negros.
Yo también tengo miedo de mi rostro que se va haciendo invisible.
Cesa de soñar, o, mejor, sueña los rostros que están fuera de ti:
mírame.

*

En tus ojos se inmoviliza la tristeza; no es aún tu tristeza, pero me miras
y de tus ojos cae un pétalo de sombra.

*

Te olvidas de mirarme; ah ciega llena de luz.
Tus brazos se retiran de mí, pero yo huyo de mí en tus brazos.
Tu pensamiento me ignora
pero yo soy tu pensamiento.

*

Como música de la que aún permanece el silencio siento tus manos lejanas en mí.
Así es
la desaparición y la dulzura.

*

No es el grito de los pájaros más allá de las sombras
ni el temblor del azufre en la quietud de la tormenta;
no es el mercurio en mis venas
ni el espesor del verano en mi corazón.
No es nada realmente: tu rostro ha abandonado mis sueños
y no te encuentro debajo de mis párpados.

*

Temes mis manos
pero a veces sonríes y te extravías en ti misma
y, sin saberlo, extiendes luz en torno a ti
y yo adelanto mis manos y no llego a tocarte; únicamente
acaricio tu luz.

*

Huyó de mí.
Quizá está en ti y apenas lo sientes en tu pequeño corazón.
Sí; es una sombra; no
pesa en tu corazón.

*

Dices: “va a venir la luz”. No es su hora
pero tú desconoces la imposibilidad:
piensas la luz.

*

Yo estaré en tu pensamiento, no seré más que una sombra imprecisa;
habré existido en un instante en que la alegría y la piedad ardían en tus ojos.
Pero también quiero permanecer desconocido en ti.
Desconocido. Simplemente envuelto en tu felicidad.
Tú distraída en tu luz y yo apenas viviente en ella, y así, imperceptiblemente amado, esperar la desaparición.
Aunque quizá estamos ya separados por un hilo de sombra y cada uno está en su propia luz
y la mía es la que tú vas abandonando.

*

Eres como una flor ante el abismo, eres
la última flor.


Baixe Cecilia em PDF aqui.

Foreign Words - Oswald de Andrade

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Tarsila do Amaral - São Paulo, 1924; óleo sobre tela, 67 x 90 cm.

National Library

The Abandoned Child
Doctor Coppelius
Let Us Go with Him
Miss Spring
Brazilian Code of Civil Law
How to Win the Lottery
Public Speaking for Everyone
The Pole in Flames

translated by Jean R. Longland

Biblioteca Nacional

A Criança Abandonada
O Doutor Coppelius
Vamos Com Ele
Senhorita Primavera
Código Civil Brasileiro
A arte de ganhar no bicho
O Orador Popular
O Pólo em Chamas

Releitura - Raul Bopp

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010

Hugo Espíritu, Pilão, Óleo sobre tela

Poeta modernista e diplomata brasileiro, Raul Bopp (1898—1984) participou da Semana de Arte Moderna de São Paulo ao lado dos amigos Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade.
Monjolo Chorado do Bate-Pilão

Fazenda velha. Noite e dia
Bate-pilão.

Negro passa a vida ouvindo
Bate-pilão.

Relógio triste o da fazenda.
Bate-pilão.

Negro deita. Negro acorda.
Bate-pilão.

Quebra-se a tarde. Ave-Maria.
Bate-pilão.

Chega a noite. Toda a noite
Bate-pilão.

Quando há velório de negro
Bate-pilão.

Negro levado pra cova
Bate-pilão.

Ilustração - José Geraldo de Barros Martins

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano II Número 15 - Março 2010